Entardecia quando a velha feiticeira saiu do tronco nodoso da árvore, a mais alta da mata. Vivia ali, numa clareira sombria, coberta por ramagens tão densas que não se agitavam ao sopro do vento.
Ela se aproximou da beira da lagoa de água escura como o musgo no fundo de um poço e olhou as marcas dos mil anos de tormentos que lhe turvavam os olhos. Curvada pelo cansaço, as faces encovadas, os ossos carcomidos, ela olhou tão fundo no fundo da água, que só as trevas podiam servir de espelho para a sua inquietação.
Então sacudiu a longa cabeleira emaranhada de espessas teias de aranha. Tinha chegado seu último dia na solidão da mata. Não desejava mais transformar–se ao crepúsculo numa coruja de asas enormes e atravessar a noite num piado lúgubre sobre os paus de uma cerca.
Foi assim que a velha feiticeira virou um escaravelho vermelho, como os que vira nas tumbas dos desertos do Egito, onde nascera já há muitos milênios. E assim saiu para os campos dourados, de onde os pássaros partiam em revoada sobre o arrozal, procurando em bandos as copas das árvores.
Esgueirando–se entre as sombras compridas das moitas, o escaravelho chegou a um riacho. A água ali era cristalina e fria e nela flutuavam tufos verdes de agrião. Nas margens cresciam copos-de-leite, de hastes rígidas e brilhantes sustentando as corolas brancas que balançavam suavemente na brisa da tarde.Por um longo tempo o escaravelho ficou olhando a correnteza.
– Eu poderia ser uma pedra, pensou.
– A água me faria redonda e polida até que o tempo me transformasse num único grão de areia. Eu viajaria e chegaria ao mar e as ondas me levariam sem cessar, eu viveria para sempre a ir e vir entre a imensidão do oceano e as suaves dunas de uma praia.
– Não, não é a pedra que eu desejo ser…
E o escaravelho seguiu pelas margens, atravessou a várzea onde os grãos amadureciam nas espigas.
No outro lado havia uma plantação de flores com canteiros de rosas, margaridas e cravos de todas as cores. Foi de um único cravo amarelo, tão grande e crespo como jamais vira, que ele se aproximou.
– Eis um cravo raro, pensou. – Eu poderia ser como ele e morar num viveiro de cristal. Não haveria no mundo uma flor mais bela. Mas um dia eu começaria a murchar até que secas, as minhas pétalas cairiam e ficariam espalhadas até serem varridas para longe.
– Não, não é uma flor que eu desejo ser…
O escaravelho seguiu seu caminho e chegou a um pomar de laranjeiras. Havia no ar um perfume de pólen e néctar. Ele parou e admirou as frutas maduras e suculentas que faziam vergar os galhos.
– Não, pensou. – São tantas as laranjas aqui que eu poderia apodrecer e cair. É melhor continuar a minha procura. Em algum lugar deve existir alguma coisa tão bela que possa viver eternamente…
E ele seguiu pela linha do horizonte que se tornava escarlate, atravessou os pastos, onde os grilos cricrilavam e saltavam debaixo do capim.
Passou por um curral, onde as vacas recolhidas ruminavam sossegadas. As galinhas se encolhiam nos poleiros de um galinheiro.
Sobre a borda da janela da casa viu um tabuleiro com pães recém–assados. No forno de barro, a lenha ainda estalava e havia no ar um cheiro bom de farinha tostada.
–Talvez um pão, pensou. – De crosta castanha e miolo macio… Mas uma faca me partiria e meu coração se desfaria em farelos…
Sentado à soleira da porta, Olhos Negros sonhava, o livro entreaberto no colo.
Era preciso seguir atento o andar vagaroso das nuvens e surpreender o instante de um último feixe de luz varando a folhagem E ficar imóvel, para sentir o leve adejar das mariposas.
Em algum lugar, além do arrozal, havia um castelo feito do mais puro mármore branco. No castelo havia um jardim, cortado por cem alamedas e cem canteiros de flores, com cem repuxos cristalinos jorrando de fontes brancas. Havia um bosque, com árvores muito velhas cercando um lago profundo. Ao entardecer tudo se tingia de dourado e rosa…
O escaravelho subiu pela trepadeira que seguia os caibros de telhado e viu Olhos Negros sentado a sonhar. Seguiu o andar vagaroso das nuvens e o sol que se punha atrás dos montes, muito além da várzea e dos campos de arroz. E antes que de todo se escondesse, soube o que devia fazer e entrou sorrateiramente entre as dobras do livro.
E quando Olhos Negros finalmente virou a página, aproveitando a última réstia de luz dourada, viu a mais bela princesa de todos os contos de fadas que até então havia lido.
Tão claros eram seus olhos e a cabeleira tão diáfana, que ele se viu preso para sempre de seu encantamento…