Papo de pato

O ovo estava na beira da lagoa.

O sol nasceu, o galo cantou, o ovo estalou.

O pato pôs a cabeça fora, viu o galo e chamou:

– Quááááá! (Que na língua dos patos quer dizer:- manhêêêê!)

O galo pensou:

– Ih, cuidar de um pato! Que chato! Vou é fazer um trato. E falou:

– Pato, vou até ali e já volto. E voou.

—-

O pato queria ir atrás, mas ainda estava preso no ovo.

E lá se foi o galo.

—-

O sol esquentou, o ovo estalou de novo.

O pato esticou o pescoço fora, viu um sapo e chamou:

– Quá! Quaquá? (Na língua dos patos:- Mãe! Mamãe?)

O sapo pensou:

-Xiiii! Cuidar de um pato? Dessa eu escapo. E falou:

– Pato, vou até ali e já volto. E pulou.

—–

O pato queria ir atrás, mas ainda estava preso no ovo.

E lá se foi o sapo atrás do galo.

—–

O sol esquentou mais um pouco e o ovo estalou de novo.

O pato pôs uma asa fora, viu o rato e chamou:

– Quaquá??? (Será essa a mamãe???)

O rato pensou:

– Humm! Se fico com pato, eu caço? Ou pato dá cabo de rato? E falou:

– Pato, vou até ali e já volto. E escapou.

—–

O pato queria ir atrás, mas ainda estava preso no ovo.

E lá se foi o rato atrás do sapo, atrás do galo.

—–

O sol esquentou um pouco mais e de novo o ovo estalou.

O pato pôs outra asa fora, viu o gato e chamou:

– QUÁ! QUÁ! QUÁ! (Já estava ficando bravo!)

O gato pensou:

– Gato com pato? Eu nem nado! E falou:

– Vou até ali e já volto. E chispou.

—–

O pato queria ir atrás, mas ainda estava preso no ovo.

E lá se foi o gato atrás do rato atrás do sapo, atrás do galo…

—–

O sol esquentou mais um pouco e o ovo de novo estalou.

O pato pôs uma pata fora, viu o cachorro-do-mato e chamou:

– QUUUUÁÁÁÁ!!!! ( Estava a ponto de chorar.)

O cachorro do mato pensou:

– Babá de pato? E se pego carrapato? E falou:

– Pato, vou até ali e já volto. E disparou.

—–

O pato queria ir atrás, mas ainda estava preso no ovo.

E lá se foi o cachorro-do-mato atrás do gato, atrás do rato, atrás do sapo, atrás do galo…

—–

O sol ficou bem quente. O ovo estalou e acabou.

O pato finalmente pôs outra pata fora, viu o jacaré-do-papo e tratou de correr:

– Quaquá! Quaquá! Quaquá! (Mamãe! Mamãe! Mamãe!)

O jacaré-do-papo lambeu o beiço e pensou:

-Hummm! Nem ataco e já tem pato direto no papo!

       pu   

                lo

                       u

                             u    

                                    u

                                         .  

                                             .

A sorte é que apareceu a pata, não sei de onde.

Ela voou pra cima do jacaré-do-papo e deu tantas bicadas no ato que ele fugiu à jato.

E era uma vez um jacaré-do-papo atrás de um cachorro-do-mato, atrás de um gato, atrás de um rato, atrás de um sapo, atrás de um galo…

UFA!

—–

A pata chamou:

– Quaquaquá! Quá quá! Quá quá quaquaquá. (- Filhote! Vem cá! Vou te ensinar a nadar.)

A resposta do pato:

– Quaquá! Quá quá quaquá quaquá! (Oba! Esta é a mamãe de fato!)

E atrás da pata foi o pato.

—–

E o jacaré-do-papo, o cachorro-do-mato, o gato, o rato, o sapo, o galo?

—–

O galo chegou ao sítio do Seu Militão e pensou:

– O sol já nasceu, é hora de acordar todo mundo. E cantou bem forte:

– CÓCORÓCÓÓÓÓ !!!!!

As galinhas pensaram:

– É hora de botar ovos. E cantaram bem forte:

– CÓ COCÓ COCÓ !!!!

—–

Seu Militão acordou e pensou:

– É hora de tirar leite da vaca malhada.

Tia Miloca acordou e pensou:

– É hora de fazer um bom bolo de fubá!

—–

O galo decidiu:

– Missão cumprida. Agora que o dia já começou, posso dormir sossegado.

E cantou mais uma vez:

– CÓCORÓCÓCÓÓÓ!!!!

—–

O sapo decidiu:

– Agora que o dia começou, é hora de esquecer as serenatas.

E se escondeu debaixo de uma pedra.

—–

O rato decidiu:

– É hora de conseguir uns farelos de bolo.

Roubou alguns e rapidinho se escondeu num buraco da cozinha.

—–

O gato decidiu:

– É hora de ganhar um pires de leite.

E foi esperar Tia Miloca na beira do fogão de lenha.

—–

O cachorro-do-mato decidiu:

– É hora de comer uma bela galinha gorda!

E foi se metendo pelo galinheiro, mas as galinhas todas começaram a gritar:

-CÓ CÓCÓ CÓCÓ CÓCÓ !!!!!!

—–

Na mesma hora apareceu Sansão, o cão do seu Militão e latiu bem forte:

-Au ! Au ! Au ! ( – Aqui no sítio mando eu! )

O cachorro-do-mato quis medir forças e rosnou:

– GRRR !!!! GRRRR !!!!

Mas Sansão respondeu:

– GRRRR !!! AU ! AU ! AU !

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A essas alturas tudo virou uma confusão.

O galo tratou de cantar outra vez e mais alto:

-CÓCORÓCÓCÓ !!!!

As galinhas dispararam a cacarejar:

– CÓCÓCÓ ! CÓCÓCÓ ! CÓCÓCÓ !!!!

Apareceu o seu Militão, espingarda na mão.

-Alto lá! Aqui não tem desacato de bicho-do-mato! E atirou:

-BAM ! BAM ! BAM !

Acudiu a tia Miloca socando no ar o pau de paçoca:

-Pá ! Pá ! Pá !

—-

O cachorro-do-mato pensou:

-Epa! Hora de dar meia volta.

E virou.

—–

E o jacaré-do-papo, que estava chegando?

Trombou de cara com o cachorro-do-mato.

E quem vinha na perseguição?

Sansão, o cão. Atrás, seu Militão, espingarda na mão. Atrás dele, tia Miloca e o pau de paçoca.

—–

O jacaré pensou:

– Jacaré-do-papo não vira sapato, hora de jacaré dar no pé!

E engatou a marcha-a-ré.

—-

E olha a troca da rota:

Lá se foi a tia Miloca com o pau de paçoca atrás do seu Militão, espingarda na mão; atrás do Sansão, o cão; atrás do cachorro-do-mato, atrás do jacaré-do-papo…

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Até que a fila chegou no fim do pasto e Seu Militão gritou:

– Alto lá! Vamos fazer um trato:

– Do lado de lá, os do mato! Do lado de cá, eu laço, eu bato, eu caço!

E como o sol já ia alto e era tanta a correria, o trato foi feito e todos foram descansar.

Regina Vieira

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